5 de nov de 2018

E o meu final feliz? A representatividade lésbica na 7ª arte


Sair do armário é difícil, nós sabemos. Carregamos nas costas as expectativas de muitas pessoas em nossa volta e temos que lidar com nos entender e tentar compreender o processo de assimilação de quem nos ama. Claro que estou falando das pessoas que se assumem e não recebem nenhum ato de violência como resposta da família que, embora triste, é muito comum e, com certeza, é o pior de todos.

O processo de assimilação é complicado, pois vemos héteros o tempo todo nos livros, nos filmes, nas séries, nas novelas e em qualquer conteúdo que consumimos. E, em um ato de se encontrar, sempre buscamos personagens e personalidades LGBTQIA+ para que tenhamos o mínimo de representação. Acontece que, majoritariamente, eles não têm final feliz..

Nas novelas, os gays são estereotipados como os ‘histéricos’ e sempre amigos de madames, como Crô e Téo Pereira. Se são duas mulheres, por pressão popular, o casal sofre algumas alterações de roteiro. Clara e Marina foram rejeitadas, mas que tiveram final feliz, podendo colocar a história delas como exceção. Em Babilônia, o casal vivido por Nathália Timberg e Fernanda Montenegro, foi hostilizado não só com ofensas homofóbicas e lesbofóbicas, como também de cunho ageista. Atualmente, a novela das 21h, da rede Globo, tem Maura que, no início da trama, se declarava lésbica e agora está apaixonada por um homem.


Falando especificamente de mulheres que amam mulheres na 7ª arte, além de não terminarem juntas, as personagens, muitas vezes, são usadas para satisfazer o prazer masculino, como se o "ser lésbica" fosse fetiche. Um clássico assim é do longa “Azul é a cor mais quente” que, além de não seguir o roteiro dos quadrinhos (que é maravilhoso), estereotipa de todas as formas possíveis o amor entre duas mulheres.

Há diversos roteiros, como “Um quarto em Roma”, “Assunto de Meninas”, “Flores Raras” e “Amor por Direito”, que nos negam um final feliz, mas claro que não poderíamos deixar de lado as histórias que realmente deram certo. “Imagina eu & você” e até mesmo “Carol” (indicado em seis categorias no Oscar), que causou uma dúvida sobre qual teria sido o final do casal. Inclusive, o livro homônimo foi o primeiro que teve um final feliz para um casal de lésbicas, já que sempre uma morria, um homem surgia ou qualquer outra circunstância que pudesse afastá-las, como em “Minhas mães e meu pai”, que uma das mães se envolve sexualmente com o doador do espermatozoide.

No cinema também há uma série de casais que surgem tão rápido que a gente não consegue nem entender. Em “Fome de Viver”, Catherine Deneuve e Susan Sarandon aparecem como casal em dado momento da história.
E então, eu, no auge da minha autodescoberta, pensei: eu vou terminar como Therese e Carol ou como Adele e Emma? Eu vou ou não ter meu final feliz?


A dramaturgia tem um compromisso com a arte e também um compromisso com a representatividade. Há espaço para distopias, ação, fantasias e drama reais. Nós somos reais e olhe onde estamos? Nossa sexualidade não é o problema central da história, não é o empecilho no meio da jornada do herói. Não precisa ser resolvido. É parte de quem somos.

Quando começarmos a pensar assim e cobrar isso, vamos ter, de fato, papéis representativos e reais para que jovens assustadxs e curiosxs que precisam se nortear e se espelhar. Vamos ter mais entendimento e, principalmente, esperança de que teremos nossos finais felizes.

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