17 de out de 2018

Onde está a Segunda: uma análise política

Longa da Netflix conta a história de sete irmãs que vivem reclusas por pressões governamentais


O ano é 2073. A Terra passou por um ‘boom’ populacional, apresentando uma escassez alimentícia. Desesperados, os cientistas começam a trabalhar em tratamentos genéticos para que o cultivo de alimentos seja mais rápido. Porém, como efeito colateral, o consumo desses alimentos fez com que as gestações de múltiplos aumentassem consideravelmente. Com isso, o fim é certo.

Pensando em uma maneira de retardar esse processo, a senadora Nicolette Cayman, interpretada por Glenn Close, implementa a ‘Lei de Alocação Infantil’, que funciona como ‘política do filho único’. As famílias têm direito a ter somente um filho, e os outros devem ser entregues a Agência de Segurança, responsável por colocar essas crianças em sono criogênico. Mas, para que essa política seja seguida, os cidadãos perdem parcialmente seu direito de ir e vir, já que precisam andar com braceletes conectados a uma rede que averigua se são filhos únicos, além de localizadores.

Com tudo isso, chegamos em Terrence Settman (Willem Dafoe), um homem que acabou de perder sua filha que deu à luz a sete meninas. Desnorteado e não confiando no sistema político, ele decide criar as meninas clandestinamente. Seus nomes são Monday, Tuesday, Wednesday, Thursday, Friday, Saturday e Sunday.

Trinta anos depois, as moças, interpretadas pela atriz sueca Noomi Rapace, assumem a identidade de sua mãe falecida, Karen Settman, e cada uma saí para o mundo exterior no dia que leva seu nome. O avô, durante os treinamentos ao longo da vida, afirma que elas devem sempre negar a existência de suas irmãs e que nunca podem sair juntas. Dentro do pequeno apartamento, cada uma assume sua verdadeira identidade, mas um dia na semana, as mulheres assumem a ‘máscara’ de Karen.


Monday (Segunda) é uma mulher mais voltada a vida profissional e, como irmã mais velha, sempre precisou ser exemplo para as outras. Tuesday (Terça) é mais good vibes, é preocupada com as irmãs e prefere relaxar com sua marijuana. Wednesday (Quarta) é mais esportiva e agressiva. Sem papas na língua, ela age quase sempre por impulso. Thursday (Quinta) não se conforma com o regime repressivo em que vivem. Para ela, a experiência que vivem no mundo exterior não é autêntica, já que assumem a identidade de outra pessoa. Friday (Sexta) é a mais quieta e nerd. Frágil, a mulher poucas vezes aparece em conflitos com suas irmãs. Saturday (Sábado) é a típica patricinha. Anda sempre de rosa e não gosta muito de pensar sobre como vivem. Para Sábado, as coisas são como devem ser. E, por último, Sunday (Domingo), que é mais reservada, maternal e espirituosa; sempre que a vemos, está preocupada com as irmãs e/ou cuidando delas.

A trama principal se dá, como o título indica, sobre o desaparecimento de Monday, que leva a uma série de outras coisas para encontrá-la.

UMA ANÁLISE – O regime em que vivem é ditatorial. E então, no momento político em que vivemos, é muito importante frisar em que consiste uma ditadura. De acordo com o dicionário Michaelis, ditadura é “governo autoritário, unipessoal ou colegiado, caracterizado pela tomada do poder político, com o apoio das Forças Armadas, em desrespeito às leis em vigor, com a consequente subordinação dos órgãos legislativos e judiciários, a suspensão das eleições e do estado de direito, com medidas controladoras da liberdade individual, repressão da livre expressão, censura da imprensa e ausência de regras transparentes em relação ao processo de sucessão governamental”.

O filme é composto de diversas metáforas, como, por exemplo, a diferença de personalidade que elas expressam dentro de casa. A liberdade de expressão em um regime ditatorial é reduzida a nada; exceto se você tem a opinião dos governantes. A personagem de Thursday é claramente parte de algumas minorias e, sentindo-se incomoda, é a mais militante dentro de toda a história. Elas manifestam-se criativamente e fisicamente em quatro paredes, mas, no mundo exterior, assumem as opiniões do governo. Ditaduras não querem saber opinião de grupos contrários, ditaduras matam e torturam grupos contrários.


Esse filme, embora tenha entrado na lista dos meus filmes favoritos, nunca me passou pela cabeça resenha-lo, mas, graças a sangrenta corrida presidencial e aos pedidos de intervenção militar e as declarações absurdas, percebi que é importante falar sobre isso, falar sobre regimes repressivos. Claro que o motivo apresentado pelo filme é muito diferente do que aconteceu no Brasil em 1º de abril de 1964; não tivemos um ‘boom’ populacional, mas o sistema quase sempre funciona da mesma maneira, em 1964, em 2073 ou em 2019. É preocupante!

O filme é de 2017, dirigido por Tommy Wirkola e conta, como cereja do bolo, com a atuação de Noomi Rapace, que se tornou uma das minhas atrizes favoritas e, em oito mulheres distintas, consegue te conquistar em 2 horas de filme. Vale a pena conferir!

Texto: Lauren Olivieiro
Fotos: Divulgação/Reprodução