24 de out de 2018

Eles não poderão nos calar. Vencemos uma vez e venceremos de novo.


Sabemos que a ditadura militar brasileira, que teve início com o golpe de estado de 1964, tinha grande mobilização na repressão dos então considerados subversivos, mas o que realmente conhecemos da resistência LGBT durante esse período de nossa história? É sobre isso que quero conversar com vocês hoje. Para dar início gostaria de esclarecer que esse texto não se trata de um artigo ou notícia, ele tampouco é um ensaio, talvez esteja mais próximo de um desabafo de maneira que convido a todos que o lerem a comentar e responder com suas dúvidas, questionamentos e opiniões. 

Com uma breve pesquisa começamos a entender o panorama internacional dos direitos LGBT no contexto anterior à ditadura no Brasil: Inspirada pelo movimento feminista e negro, a comunidade começava a se levantar em países que tiveram o privilégio de se desenvolver intelectualmente enquanto utilizavam nossa terra como quintal e nosso povo como degrau, de maneira que na década de 50 as primeiras organizações pelo direito LGBT tomavam corpo nos Estados Unidos e Europa. Já no Brasil, apesar do advento da revolução sexual, muitos movimentos de esquerda compartilhavam dessa visão moralista dos bons costumes sexuais, negavam a interseccionalidade e buscavam uma pauta mais focada nos direitos do trabalhador, questão que até hoje se faz bastante presente nos movimentos socais do país. 

Nos anos 70, quando os coletivos se levantaram a nível internacional, o Brasil, em meio a repressão militar, sofria nas mãos do controle moral de comportamentos sexuais então vistos como desviantes e a comunidade LGBT, sem muito apoio da esquerda, era submetida a diversas violências entre elas detenções arbitrárias, expurgos de cargos públicos, perseguição, tortura, censura e assim por diante. Na época, centenas de pessoas foram levadas para prisões, acusadas de “homossexualismo” e submetidas a torturas mais graves do que os demais presos políticos, já que na visão da ditadura, mulheres, homossexuais e negros tinham sua “condição” como agravante. Impedida de se organizar politicamente, a comunidade LGBT brasileira utilizou como resistência locais de socialização como casas noturnas, guetos e festas, espaços esses que ainda detém grande significado para o nosso movimento de resistência. 

Apesar das amplas censuras da mídia para qualquer ativista que se levantasse pelo movimento, alguns artistas conseguiram utilizar de sua fama como canal para questionar padrões de gênero e sexualidade , como os casos de Ney Matogrosso e Welluma Brown, “chacrete” e travesti negra que anos mais tarde declarou, em entrevista, que era necessário que a comunidade se cortasse para evitar prisão, tortura e estupro, já que na época a AIDs era associada como doença homossexual e os cortes expostos eram uma maneira de amedrontar os policiais.


O jornal “O snob” também foi um exemplo de resistência LGBT durante o período ditatorial marcando o início da imprensa alternativa gay no Brasil. No final dos anos 70 aconteceram as primeiras tentativas de organização política da comunidade LGBT, debatendo a necessidade de inclusão do respeito a comunidade na Constituição Federal, além da primeira “marcha gay” em São Paulo no ano de 1980 que pode ser considerada percursora da atual Parada LGBTQ+. Aproximadamente quinze anos depois foi criada a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, mas o sonho de ter uma constituição ativa na proteção da comunidade ainda continua irrealizado. 

No cenário contemporâneo brasileiro, o conhecimento é sinônimo de poder, de maneira que saber da nossa história é essencial para que estejamos prontos para enfrentar o que vier pela frente. O direito de ser político nos foi tomado durante toda nossa existência e nem sequer na luta éramos considerados como parte da resistência. Como comunidade LGBT já enfrentamos dias melhores e dias piores, e foi em um momento de caos que, ao nos aliarmos a demais movimentos até então segregados, encontramos nossa força para mudar o cenário social a nosso favor. Entretanto, nada disso teria acontecido se não tivéssemos nos tornados políticos e não tivéssemos nos aliados a movimentos semelhantes ao nosso. 

Independentemente do resultado da eleição e mesmo que em diferentes graus, nossa luta será necessária, como foi há 54 anos por direitos e espaços que foram e são negados a nós e aos movimentos aliados. É hora de sermos realmente uma assembleia de pessoas que se faz ser ouvida e mostrar que nos calar hoje será muito mais difícil, pois a resistência política que nos libertou antes segue viva em nossa história.