22 de out de 2018

#CanecaRecomenda | 'A Filha Perdida' evidencia conflitos da maternidade sem filtros



Com o objetivo de enriquecer o diálogo de conteúdos tratados como tabu dentro dos padrões da sociedade em que vivemos, o Coletivo Caneca começa uma nova campanha dentro do blog: o "Caneca Recomenda". Para abrir a série de obras artísticas a serem discutidas aqui, escolhemos "A Filha Perdida", com autoria de Elena Ferranti.

Em tempos em que o debate sobre a maternidade real está ganhando cada vez mais a merecida visibilidade o livro italiano “A Filha Perdida” vem abordando conflitos doloridos com uma visão sem filtros do tema. Em seu primeiro capítulo vemos Leda, a narradora, sofrendo um acidente de carro causado por um gesto que fica subentendido como intencional e coloca seu automóvel para fora da estrada em meio a um devaneio melancólico que a leva de volta para sua infância.

A visão que temos de Leda até então é contraposta por uma volta curta no tempo e a encontramos em um momento após suas filhas jovens terem se mudado para morar com o pai no Canadá, de maneira que ela passa a desfrutar de uma tranquilidade leve e rejuvenescedora, acompanhada pelo sentimento de dever cumprido.

Nessa onda de euforia a narradora decide utilizar suas férias para viajar sozinha pela primeira vez em alguns anos e aluga por um mês e meio um apartamento em uma cidadezinha litorânea, onde cria para si uma rotina tranquila com um tanto moderado de ócio. Dias após sua chegada na cidade, Leda nota uma família grande e expansiva de origem napolitana desfrutando da mesma praia e a visão da família, em especial a figura de Nina, uma jovem mãe, e sua filha pequena, Elena, que leva consigo uma boneca, desperta em Leda memórias de uma maternidade ansiosa e sufocante.

Mesmo sem a presença das filhas, Leda se prende a maternidade ao observar compulsivamente Nina e projetar nela uma visão utópica de mãe ideal que a coloca em uma série de regressões permeadas por uma forte dualidade entre os papéis de mãe e mulher. Para as mães da história a maternidade destrói a individualidade até o ponto em que elas não possam coexistir e se aprende a viver um pouco para si e muito para o outro, assim, a maternidade se torna cruel e sufocante, a culpa aparece em diversos momentos e os desejos de Leda se confundem com os das filhas.

Mas o conflito é mais profundo do que parece já que das filhas de leda sabemos que Bianca foi desejada e Marta lhe foi imposta pela crença de que uma criança pequena precisa de companhia, uma irmã para que cresçam juntas, e é a segunda filha que dá início ao processo que ela futuramente chama de despedaçamento, processo esse que, ainda que não esteja clarificado na história, em alguns momentos me fez questionar se representa uma possível depressão na gestação e no pós-parto. Tendo em mente essa possibilidade também me pergunto se é esse sentimento sobre Marta que remete ao título em tradução livre: “A Filha Obscura”.

A construção da personalidade dos personagens também é um diferencial nesse livro já que leda desde o início mostra orgulhar-se de ler as estrelinhas e escutar o que não é dito tendo o relacionamento entre eles estabelecido sob filtro da visão e projeção da narradora, que não nos poupa detalhes dando um ar cru e nada romântico a história.

Já falando sobre a autora, Elena Ferrante é um pseudônimo cuja identidade ficou por muito tempo desconhecida. Diversas especulações foram criadas sobre quem estava por trás de seus livros, inclusive surgiu a teoria de que seria Domenico Starnone, renomado autor italiano, ainda que a obra de Ferrante fosse marcada pelas relações entre mulheres, maternidade e família.

No entanto, em 2016, após o lançamento de “A Filha Perdida”, uma investigação financeira revelou a tradutora Anita Raja, esposa de Starnone, como a voz por trás de Elena Ferrante, que optou por manter sua identidade em segredo para que o leitor se concentrasse na literatura e não em sua imagem.

A autora também assina a “Série Napolitana” e “Dias de Abandono”, livros que, em sua maioria, receberam grande aceitação dos leitores.


Texto: Jenifer Romero