3 de out de 2017

Funk é cultura nacional sim!


Todo dia vemos o Senado lançando propostas não tão inovadoras para o retrocesso da sociedade (com argumentos, informando que é para o avanço) e uma das pautas debatida foi a proibição do funk, que foi enviada por um webdesigner de 47 anos e que conseguiu 21.985 assinaturas.

Entretanto, ao surgir esse debate sobre o funk, me vem diversas memórias de outros estilos que também já foram julgados em nossa sociedade e que outros são aceitos, por ser de outro país, por falar de maneira não tão direta, entre outras coisas.

Estive coletando algumas respostas para que a gente consiga nortear essa conversa com mais profundidade e vivências de artistas locais.

O DJ Renan Moraes que vem tocando em casas noturnas de Sorocaba, desde o amado Terceiro Andar. Atualmente o DJ vem tocando no BlackBird onde quase que todos os finais de semana, tem pelo menos um dia para tocar funk.

Em sua experiência como DJ, Renan conta que apesar de atualmente, ter abertura de algumas casas noturnas, ainda tem públicos que ficam hostis ao receber esse estilo musical.

Outro ponto que ele comenta é que num geral, as casas noturnas vem aceitando mais, já que o Funk está em alta, muitas casas noturnas passaram a aceitar esse gênero, mesmo que não fazendo parte da ideologia inicial dos idealizadores das casas noturnas, foi preciso essa adaptação.

Além dos espaços comerciais, ainda encontramos com diversos artistas da cidade que ficaram dispostos a trazer suas reflexões sobre o tema, como o músico Gabriel Siqueira que faz parte do grupo Terceira Casa.

"Meninos que não tem nem acesso a saneamento básico começam a falar sobre amor em cima de uma batida de candomblé tocada com a boca. isso começa ganhar a atenção das pessoas e os meninos percebem que a medida em que eles criam personagens de si mesmo e de sua realidade com seus trejeitos de dançar e de cantar, as pessoas gostam mais ainda e começa a entrar dinheiro. eles percebem que aquele menino novinho super esquisito que cantava de um jeito mais esquisito ainda ta portando carro, comprou uma casa pra mãe com água encanada e que ele não vai precisar sair roubando ninguém, arriscando a vida pra poder subir na vida, sua chance de ouro. As batidas e os clipes começam a ficar mais elaboradas e mais universais ainda a medida em que o dinheiro entra e eles abraçam exatamente a expressão do que eles são. Pensa que eu não sei? Sou um tanto problemático bem que eu avisei.. automaticamente quando ela escuta, já quer embrasar, ela fica maluca".

E ainda acrescenta que "Pra quem produz, o funk é um caminho de ascensão econômica e de aceitação social, transgredindo a quebrada e circulando por espaços que nunca foram possíveis nem em sonho. pra quem consome, o funk é uma oportunidade de se libertar por algumas horas e ser sensual do seu jeitinho, dançar e ser feliz se sentido parte de um todo. condomínios e guetos, brancos e pretos, todos numa vibração só".

Alinhando ainda mais com esse posicionamento, conversei com Khalil Magno, músico que vem tocando nos ônibus da cidade e trazendo mais brilho a primavera que se inicia!


"Acredito que a hostilidade em relação ao funk vem do preconceito com sua origem, as pessoas nem percebem, só reproduzem e ainda tentam dar outra conotação pra o que na verdade não passa de preconceito e elitismo. Acho essa sugestão legislativa imoral, inconstitucional e autoritária. Como músico nunca senti meu som ser hostilizado, nem mesmo como artista de rua quando toco nos transportes coletivos, mas estou ciente de meus privilégios, sou um cara branco que toca mpb, tenho colegas que fazem a mesma abordagem que eu, nos mesmos lugares, mas são tratados diferentemente por mandar uma rima, e aliás, se MPBé música popular brasileira nada mais ''MPB'' que o funk não é mesmo?"

Para encerrar e trazer uma visão acadêmica, tive a oportunidade conversar com Thífani Postali, professora de comunicação na UNISO (Universidade de Sorocaba) que tem sua pesquisa voltada a arte de rua e os preconceitos que rodeiam essa temática.

"O funk que a mídia promove e da internet é o funk putaria, que muitas vezes é confundido ao funk proibidão, pois o buraco é muito mais embaixo!"

A professora ainda comenta que a política vem debatendo com mais força os assuntos polêmicos como homossexualidade e religiosidade e acrescenta que a partir do momento que cai o assunto em mãos de juízes errados é meio difícil duvidar de que o assunto não vai ter força nos ambientes da política, principalmente pelos representantes que estão atualmente levando o país.
Ainda comenta que a classe média e alta vem absorvendo o funk apenas como um divertimento e ressalta que nós não sabemos como que vem chegando o conteúdo do funk em periferias e como esses assuntos vem sendo absorvidos por crianças e ressalta que apesar da lei estar sendo discutida, nada foi trazido de como isso realmente vai acontecer e relembra que o cinema, os jogos digitais eram produtos que para muitos incentivava violência, mas que isso foi parado de se pensar, durante o processo de envolvimento das pessoas e suas experiências, então o que vale frisar é que sim, o funk, precisa ser debatido, até porque as crianças estão absorvendo esse produto e é preciso saber como isso está recebido.

Através dessa variedade de assuntos é perceptível o quanto esse assunto vem sendo debatido de maneira superficial no Senado e que precisamos ampliar a nossa visão sobre esse assunto em espaços que nem sempre estamos tendo acesso.

Ampliar a nossa ótica e apurar com muita calma, pois, existe uma vastidão de posicionamentos sobre o assunto e não precisamos nos silenciar pelos esteriótipos que o estilo musical carrega.