20 de jul de 2017

Entrevista | Natalia Pinheiro do Dyke Fest #1


Ser lésbica é algo bem difícil, pois em diversos espaços silenciam nossa existência e nessa vibe de nadar contra a maré, vem minas empoderadas trazendo projetos inspiradores. 

Esse é o caso da Natalia Pinheiro, que por um bom tempo esteve desde o começo na organização da Virada Lésbica em São Paulo, evento que visa trazer as nossas pautas e os nossos gritos de luta para essa sociedade que todo dia nos silencia.

Seguindo esse viés de eventos para lésbicas, Natália criou a primeira edição do Dyke Fest, evento independente de Hardcore contra a Lesbofobia e que está com um line-up incrível. 

Ficou interessada em somar nesse evento?
Confira na entrevista como surgiu e confirme presença nesse role! 

Como surgiu o DykeFest?
A minha militância por muito tempo foi feita em espaços mais quadrados, reuniões de muitas horas e construção de atos como a Caminhada Lésbica, Visibilidade Lésbica, entre outros, em paralelo sempre colei em festivais de hardcore/punk e cada vez mais fui me apaixonando pela possibilidade de passar uma mensagem que é mais dura por meio do som, poesia, intervenções. Comecei a introduzir tudo que aprendia no encerramento da Caminhada Lésbica de São Paulo com bandas que estavam começando de diferentes estilos, me envolvendo na montagem do palco, na produção, foi um caminho sem volta. No ano passado, junto com outras mulheres construí o Maria Bonita Fest que é um festival com foco em hardcore/punk de minas, conheci cada vez mais mulheres e descobri que as minas juntas conseguem fazer qualquer coisa, as relação entre as bandas e produtoras é muito solidária e todas se ajudam muito. Me retirei do Maria Bonita Fest, que segue a todo gás, e resolvi fazer um Fest direcionado para as mulheres lésbicas, junto com a minha companheira Bruna Medeiros, começamos a pensar no Fest, e está acontecendo. Conseguimos unir as militantes que mais admiro em uma roda de conversa maravilhosa, bandas incríveis e estamos recebendo todo apoio do mundo pra esse Fest acontecer, no fim das contas, ele está sendo feito por muitas mãos.

Você acredita que vem acontecendo mais espaço para debater sobre a lesbofobia atualmente?
Acho que ficamos orƒãs por um período, tínhamos festivais como o Lady Fest que deixaram de acontecer por um período, mas agora muitos fatores, entre eles a internet, colaboraram para o encontro das minas que acreditam no poder transformador do feminismo, e estão nascendo novos festivais, grupos políticos e inúmeros espaços de troca entre mulheres. É sempre bom lembrar que “Não estamos inventando a roda”, antes de nós existiram muitas outras mulheres que serviram de referencia e graças a ela isso tudo é possível, mas é inegável a evolução da cena e dos debates.

O que vem percebendo sobre a cena hardcore, vem tendo mais espaço de fala ou continua como antigamente?
Acho que criamos a nossa cena, a nossa própria maneira de fazer som, dançar, montar festivais, debates... A cena do hardcore masculino ainda é muito violenta, os caras estão mais “treinados”, alguns se tornaram até aliados na medida do possível. A violência é cada vez mais sutil em alguns espaços e mais aparente em outros, mas a nossa presença existe e eles vão ter que lidar com ela. O machismo na cena do hardcore é um reflexo da sociedade como um todo, o feminismo está colocada e estamos prontas para lutar e resistir, no hardcore, na rua, no trabalho, em todos os espaços.

Você saiu de uma banda e foi para outra, que inclusive vai tocar no festival, o que fez tomar essa decisão?
A minha antiga banda a Moita é composta por minas incríveis! Foi uma experiência incrível dividir momentos e a construção da banda com elas, mas quando finalmente você está inserida nesse espaço você percebe que pode priorizar certos discursos, quero fazer da banda uma extensão da minha vida, posicionamentos políticos e falar cada vez mais sobre feminismo através da ótica das mulheres lésbicas que querem pensar gênero, sexualidade, identidade, classe, raça.. Todo a sorte do mundo pra Moita que continua com todo o gás do mundo e espero que gostem da Bioma. rs

Quais os próximos projetos após esse evento?
Continuar militando, pensar no que pode virar o Dyke Fest, a banda Bioma e fortalecer cada vez mais essa cena.

Que dicas daria para as minas que querem estar mais ativas na cena hardcore?
Cole nos festivais, dance, dance muito, se divirta, faça amigas, monte bandas, monte um festival.