Não a UFSOR! (e o porque somos contra)


Sorocaba têm universidade federal? Sim, nós temos

Um tema que de tempos em tempos brota dentro da universidade que é a ideia constante de um grupo específico da região de transformar o campus da UFSCar de Sorocaba na Universidade Federal de Sorocaba (UFSor, para os mais íntimos). Digo tema e não debate porque sempre surge de quase que de geração espontânea (“tal político faz apelo em Brasília para que o campus UFSCar se torne UFSor”), ou advindo daquela mesma reportagem de 2014 que todo ano renasce por esquecerem de olhar a data.  Então vamos lá discorrer sobre o tema, até porque como estudante do campus eu vivi uns capítulos dessa novela.

O campus em Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos surge em 2006 (mas a construção da estrutura física do campus só em 2008; antes disso, as aulas dos cursos eram ministradas na Facens). Originalmente, o campus seria numa área da Floresta Nacional de Ipanema (o famosíssimo morro de Ipanema ia ser nosso vizinho, ia ser maravilhoso). Devido a questões estruturais, não haveria como construir ele lá, então Sorocaba se “voluntariou” (todo mundo sabe que o campus tá aqui porque Salto de Pirapora tinha se candidatado a receber e Sorocaba cooptou o projeto pra não perder o status pra vizinha menor e desconhecida) para receber a universidade, doando a concessão do terreno (até 2025) e realizando o mínimo, quer dizer, obras estruturais de água, eletricidade e asfaltamento. (Sempre bom relembrar que o campus até hoje não possui sistema de saneamento, apesar do projeto existente de construção de uma estação de tratamento de esgoto, parada pelo SAAE há anos). Toda essa boa vontade era uma forma de afirmar a vontade de Sorocaba ter uma universidade pública (vontade meio controversa, pois em 1999 quando a UNESP quis criar um campus, teve seu pedido rejeitado pelas lideranças locais, e só conseguiu um campus em 2002 porque o Banco do Brasil doou).

Pois bem, hoje temos um campus consolidado, com 14 cursos, todos de alto nível e muitos entre os cinco melhores do país (Turismo e Administração nossos estão em primeiro lugar). Temos 9 programas de pós graduação, sendo 2 de doutorado, e possuímos por volta de 3 mil alunos e 400 funcionários, dentre docentes e técnicos administrativos. A vida aqui nesse pedaço de terra que fica a 15km do centro da cidade é bem agitada e esperada de uma vida universitária: a todo momento uma prova ou seminário do além, o salgado que é caro, a atividade online que você faz quando faltam 10min pra terminar o prazo, desespero e ansiedade constantes, além das festas e roles que nos tornam especialistas em dormir em qualquer ambiente (incluindo a própria festa) e dobrar o tecido do tempo-espaço (quem nunca leu aquele artigo de 40 páginas em 15 minutos). Para além disso, temos uma produção de material científico muito boa, e projetos de extensão muito bacanas, como o CEC (cursinho oferecido no campus) o Núcleo Apetê Caapuã de Agroecologia, a Rede Emancipa de cursinhos populares, etc etc.

Em 2014 surge uns docentes daqui do campus junto de políticos locais em Brasília para sugerir a criação da UFSor, por essa ser uma demanda local muito grande. Não se sabia se a surpresa maior era esses docentes falarem em nome da universidade sem consultar, ou o total desconhecimento local dessa grande demanda. Inclusive, na única consulta sobre o tema, realizada esse ano, 98% da comunidade interna votou contra a emancipação. Mas apesar disso, até uma comissão na Câmara Municipal é criada para se avaliar essa possibilidade, finalizando que eles adorariam isso e um monte de argumento muito miss universo para justificar. Em 2015, os docentes e técnicos administrativos geram um relatório que rebate cada ponto utilizado como justificativa, pondo um ponto pause na história. Mas então eis que surge esse ano um post de uma galera que se autodenomina “Instituto Defenda Sorocaba”, falando que estariam na luta pela criação de uma UFSor e que isso inclusive tinha apoio da prefeitura. Fizemos eventos para debate (ninguém que defendia UFSor apareceu), fizemos consulta, nos posicionamos contra. E o prefeito me aparece em Brasília com o ministro da Educação pedindo para que ele dê atenção especial a esse tema que é um anseio muito grande da região. Quis muito entender onde esse grande anseio popular mora, ou o que pensa e come, porque eu não achei ele ainda.

Agora vamos entrar na parte da treta: porque não transformar o campus Sorocaba na UFSor? Vou argumentar baseado em três pontos: o acadêmico, o político e o estrutural.

Academicamente, isso destruiria o campus. Somos a 11° universidade mais conceituada do país, e ganhar nome e renome é um trabalho muito demorado no meio científico. Além de que muitos docentes que estão atualmente no campus estão pelos benefícios que trabalhar numa universidade de porte oferece para pesquisa. A criação de uma nova universidade espantaria muitos dos pesquisadores (e suas pesquisas) da região, além de que tiraria a força do currículo dos estudantes locais. Sim, eu acho muito péssimo ter que argumentar de pontos de vistas que vão contra minha forma de pensar, mas é necessário ser realista: que tipo de docente preferiria lecionar numa UFSor (leia com o sotaque local) à uma UFSCar?

O político é bem simples: poder e prestígio. O maior argumento que os defensores da UFSor utilizam é que o campus sofre por ser dependente de São Carlos, e que uma emancipação traria mais dividendos para cá. Pra começar esse discurso vem de uma classe social que odeia o fato de que empresas não podem utilizar estudantes do campus como mão de obra barata nas pesquisas deles (porque é muito comum empresas financiarem laboratórios e estudos em prol de gerarem capital; Unicamp e Fatec que o digam). Imagina que maravilha seria para eles a liberação de patentes a custa de trabalhos de estudantes ou da universidade, que não ganha nada com isso. Afora que convenhamos, ter uma universidade federal com seu nome dá um status a cidade (na cabeça deles). A galera ainda não se acostumou que existe um local na cidade cujas decisões ou vontades deles são irrelevantes.

E o terceiro é estrutural. Se você nunca veio na UFSCar Sorocaba, convido que cole pra dar um role comigo um dia. Temos uma estrutura física minúscula quando comparada com o porte que se espera de uma universidade própria. De início, sequer temos cursos em todas as áreas do conhecimento (exigência mínima para se tornar uma universidade), e muito menos estrutura de laboratórios e docentes para os cursos que já temos. Os técnicos administrativos já acumulam trabalho por demais, agora imagina o que seria se a gente desse na cabeça de se emancipar. Além de que o bairro que estamos (o Itinga) não possui nenhum tipo de estrutura básica como asfaltamento, iluminação pública, segurança, civilização, etc. O ônibus que nos atende de Sorocaba (o 80 - UFSCar) não roda as domingos e feriados, o que prejudica demais os estudantes e moradores locais, que acabam pagando mais caro utilizando do ônibus intermunicipal.

“Ah, mas se virarmos uma universidade iremos ter mais contratações”. A pessoa que argumenta com isso não tá sabendo que rolou um golpe no país, com direitos sendo cortados a torto e a torto, além de uma redução em ditos gastos supérfluos (saúde, meio ambiente, educação, programas sociais, essa coisa de esquerda). Se nem mesmo a verba pra comprar reagente para os laboratórios tá chegando, imagina a verba para contratação de novos funcionários?

Bom, meu texto tá enorme de grande e a linguagem é bem informal, então vou me finalizando. Deixo aqui a provocação mais simples e sucinta do mundo a quem defende tanto a ideia de que Sorocaba precisa de uma federal: já temos uma federal, ela se chama UFSCar, mas se querem uma com o nome da cidade, porque ninguém discute a federalização da Uniso, que tem toda uma estrutura e porte? Beijos do tio Raul.

Por Raul Amorim

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