Entrevista | Camila Fontenele, do Projeto 'Todos podem ser Frida'


Se você é de Sorocaba, ligado nas artes e ainda mais em questões de gênero, você com certeza já deve ter ouvido falar do projeto "Todos podem ser Frida"! Mas se não conhece ainda, não se preocupe! Essa é a sua chance de saber mais sobre esse trabalho tão lindo e singular.

O Projeto tenta resgatar aspectos sobre a vida da mexicana Frida Khalo, passando pelos seus fatos mais impactantes. Iniciou com fotografias que retratavam modelos homens interpretando a artista. A inversão dos papéis de gênero, segundo Camila se deram propositalmente para mostrar que a imagem de Frida está presente em todas as nuances do ser humano.

Logo o projeto começou a ocupar espaços artísticos e culturais, passou a realizar intervenções fotográficas e já ganhou o mundo. Esteve no Museu da Diversidade Sexual, Museu da Imigração, passou por aproximadamente 24 cidades do Brasil entre os estados de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. E 3 no exterior, em Caserta na Itália, Londres na Inglaterra, e León no México. E falando em México, a fotógrafa recebeu de lá este ano um prêmio do concurso de fotografia Diversidad Sexual, da Universidad de Guanajuato.

Já acompanho o Projeto Todos Podem ser Frida fazem alguns anos. Na época eu ainda não tinha tanto desprendimento quanto a minha sexualidade e lembro que participei de uma intervenção me vestindo de Frida. Para mim foi um contraste forte, já que nunca tinha passado maquiagem e me vestido com trajes ditos femininos em um lugar público onde a foto ficou disponível para quem quisesse ver.

Hoje eu tenho o prazer de acompanhar esse projeto que fez parte da minha vivência artística e pessoal e recentemente tive a oportunidade de conversar um pouco mais com a Camila, fotógrafa e idealizadora do projeto para entender um pouco mais desse universo de Todos Podem ser Frida e como ela mergulhou nele de cara e que hoje, se tudo der certo, está prestes a se tornar um livro!


- Qual foi a sua intenção ao começar o Todos Podem ser Frida?

Na época em que idealizei o Todos Podem Ser Frida, em 2012, trabalhava como publicitária e a fotografia era um hobbie. Pouco se falava sobre Frida Kahlo no Brasil.

Antes de tudo, na fase de pesquisa, busquei outros trabalhos inspirados nela e a maioria que encontrei foi relacionado a moda, não queria algo somente ligado a estética e sim na minha própria interpretação com sua vida. Frida Kahlo também utilizava trajes masculinos , havia rumores de sua bissexualidade, pra mim ela foi uma pessoa muito corajosa por viver de forma intensa, sem medo de experimentar o outro. Diante disso, resolvi fotografar homens travestidos de Frida e interpretando cinco fragmentos da sua trajetória (inteiro, amor, dor, cores e aborto), a produção foi feita por artistas plásticos. No inicio eu não sabia aonde esse trabalho iria me levar, era uma relação muito pessoal entre mim e ela, minha maior intenção era me comunicar artisticamente e me descobrir. Depois de um ano me dedicando para a primeira parte desse projeto, logo depois, em 2013, tive coragem de abandonar meu trabalho fixo e me dedicar 100% a fotografia.

Quando comecei a compartilhar o projeto na internet, principalmente no Facebook, percebi uma forte interação das pessoas e a vontade de se vestir como ela, mais uma vez não era uma questão estética, era algo a mais. Ela tem um poder que nem eu sei explicar direito. Foi aí que durante as exposições do projeto resolvi utilizar as intervenções como processo de experimentação.



"Frida Kahlo também utilizava trajes masculinos , havia rumores de sua bissexualidade, pra mim ela foi uma pessoa muito corajosa por viver de forma intensa, sem medo de experimentar o outro."


- Depois de todo esse tempo com as exposições, intervenções, esse propósito continua o mesmo ou você passou a enxergar de outra forma? Qual a sua percepção sobre isso?

Sim e não, eu acho que quando temos chance de viver um trabalho de forma tão longa conseguimos agregar e abrir o leque, quem me mostrou todas as possibilidades de preenchimento das lacunas foram as pessoas que participaram. Basicamente era cada um encontrando uma peça do quebra-cabeça e encaixando de uma maneira bem pessoal. Sendo assim, ele fala sobre gênero, diversidade, estética, até assuntos mais profundos que as vezes não chega até a mim.

Acho que o trabalho artístico primeiro parte daquilo que transborda: uma dúvida, uma reflexão, algo ainda abstrato, a resposta nunca vem antes e, talvez ela nunca chegue, esse é o grande barato.

"(...)ele fala sobre gênero, diversidade, estética, até assuntos mais profundos que as vezes não chega até a mim"

Você comentou que o trabalho fala sobre gênero e diversidade. Como você enxerga esse diálogo do projeto com esses temas? Quando você começou a notar isso?

O projeto começou de uma maneira bem intuitiva, os primeiros ensaios já traçavam essas provocações quanto ao gênero e foram as mesmas que abriram ainda mais para que as pessoas em geral participassem. No entanto, as pessoas que participaram das intervenções foram as que fizeram com que esses discursos sobre gênero e diversidade fossem mais apontados, dentre outros. Por isso, sempre falo que tem a bagagem de um monte de gente inspiradas por essa grande mulher que foi Frida Kahlo.

- E como veio essa ideia de lançar um livro? O que ele significa pra você?

Em 2014, eu comecei a escrever alguns relatos sobre esse projeto em um arquivo do word, guardei e depois percebi que aquelas palavras poderiam ser lidas em um livro. Esse impresso, além de documentar, significa a conexão, não só as pessoas que participaram durante todos esses anos, também com outras, ele é uma grande comemoração sobre esses fios invisíveis que a arte nos proporciona - quando compartilhada.

Mais alguma coisa que gostaria de comentar e eu não perguntei?

Não dá para deixar de pensar quanta diferença uma pessoa faz no mundo. Nós olhamos para dentro de nós mesmos questionando se temos a capacidade de heroísmo e grandeza. Mas a verdade é que toda vez que agimos, nós causamos um impacto. Cada coisa que fazemos tem um efeito nas pessoas ao nosso redor. Cada escolha que fazemos tem consequências pelo mundo. Nossos menores atos de bondade podem causar uma reação em cadeia de benefícios imprevistos para pessoas que nunca conhecemos. Nós não podemos testemunhar o resultado mas eles acontecem assim mesmo." Essa frase eu conheci através de uma série chamada Touch e sempre que me sinto muito pequena para mudar o mundo lembro dela, afinal ser pequeno a ponto de não precisar carregar tudo costas sozinho é realmente incrível. Então, não se esqueça, seus atos são importantes pra alguém.


Pensando no coletivo, também convido as pessoas para me apoiarem o financiamento coletivo do projeto Todos Podem Ser Frida, as contribuição parte de um valor mínimo de R$10, o que ajudará muito no processo de publicar um livro de modo independente. A campanha pode ser acessada através do link: www.catarse.me/todospodemserfrida, todas as informações estão em português-inglês, pra quem mora fora do Brasil a contribuição é através do cartão. A meta total é de R$ 58.750,00 que deve ser alcançada até o dia 07 de julho, caso ao contrário o dinheiro é devolvido ao apoiador, porém eu confio que as pessoas vão receber os agradecimentos, livro e recompensas.

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