16 de mai de 2017

Dear Black People


Demorei pra escrever esse texto porque trata-se de um assunto muito delicado e complexo, e falar sobre racismo é sempre um desafio, pois é algo que nos afeta diretamente. Mas a nova série da Netflix “Dear White People” ou “Cara Gente Branca” surgiu para colocar novamente o dedo na ferida da sociedade e denunciar a opressão, sobretudo aquela que se encontra nas entrelinhas, na subjetividade, aquela que todo mundo reproduz de forma “natural”. Então discutir essa abordagem é mais do que necessária.
Confesso que redigi esse texto mais de mil vezes, tentando melhor transmitir a minha mensagem sobre a mensagem que eu recebi assistindo a série, não como white people, mas como black people. 

Acontece que fui dando uma pesquisada na internet, e vendo os comentários de pessoas aleatórias, conversando com amigos sobre a série e a repercussão, percebi que muito já se fala para os white people sobre racismo, e não faz pouco tempo, podemos ter pouca informação disponível por conta inclusive da tentativa de apagamento da nossa história. Isso justificou eu mudar a abordagem do tema porque afinal o que está feito está feito e a série  que eu considerava feita principalmente para o público de pessoas brancas, foi feita excepcionalmente para pessoas pretas. E por que? Porque afinal é necessário! Quantas vezes nos deparamos enfrentando os desafios de ser uma pessoa preta nesse país, e nessa sociedade dentro de um sistema majoritariamente branco, correndo o risco e sendo sugado por todas as expectativas, frustrações, desejos e medos de pessoas brancas? Todos os dias nos deparamos com situações que nos permitem visualizar o cenário atual de dificuldades e lutas, mas é mais do que necessário fortalecer o interior. E o que tem haver? Tem haver que a série vem mostrar a importância da unidade e da ação, e de diferentes formas tentar desmistificar uma série de esteriotipos e generalizações colocadas sobre nossos corpos, não interessa o lugar de onde viemos ou das realidades que vivemos. 
Então eu acho mais do que necessário que agora que a obra já foi colocada e o recado transmitido, a educação não formal sendo contextualizada nesse momento permite uma outra forma de olhar, que não nos registros acadêmicos, que não em livros didáticos, que não um textão, mas através da arte, da música, da fotografia, com algo que todos amam, séries! Ta acessível pra muita gente. O fato é que precisamos agora ir além, que é justamente colocar os temas em pauta nas discussões, criar vínculos, não necessariamente se colocar diante de uma luta, mas ao menos ter conhecimento da própria história.

Quando assisti, e acho que pra grande maioria de black people que assistiu, foi muito fácil se projetar dentro de um ou mais personagens e todas as suas trajetórias e personalidades. A gente tá na série! Digo isso porque são muitas as realidades e muitas as possibilidades para cada pessoa nesse mundo, e para nós pretxs também existe. Quando a série apresenta os personagens de forma individual, derruba as cortinas da generalização, quando somos todos colocados em caixas, como se nosso futuro estivesse predestinado. Mostra que as vezes a gente entra em crise justamente porque somos diferentes, mas ao mesmo tempo a nossa história nos faz iguais. A possibilidade do erro e do acerto nos faz humanos.        

Percebeu quanta informação a série transmitiu em cada episódio de 30 minutos? Dava pra escrever uma dissertação de doutorado com tantas subjetividades. E acredito que são elas as fundamentais pra gente discutir o racismo, porque se pararmos pra pensar que o racismo é crime, e mesmo a gente sabendo que acontece todos os dias, existem poucas queixas porque realmente não é fácil lidar com o racismo estrutural justamente porque ele está além do sistema, ele está incorporado na sociedade, nas pessoas. E esse racismo velado é que permite que haja o genocídio da população negra, a pouca quantidade de pessoas pretas ocupando espaços de poder, universidades. A prática só funciona quando colocada em prática. Pois a série denuncia como o sistema é falho, e como as pessoas pretas estão vulneráveis e suscetíveis a uma maior violência. Não da pra falar o que cada episódio aborda, pois em todos eles muitas coisas aparecem. Mas existem muitos temas comuns que encontramos no nosso cotidiano e discussões, como colorismo, apropriação cultural, black face, solidão, hiperssexualização etc. Mas a questão do protagonismo acho que foi o carro forte da série, pois é nesse momento em que ocupamos um espaço de elite e colocamos nossas vozes e nossos corpos em vibração, que o movimento real acontece. O impacto social de uma pessoa preta em um local público sempre foi contestado, ta aí a “Lei de Vadiagem” de 1941, que dava pena de prisão por ociosidade, pra comprovar. Tem haver porque no período de sua vigência havia um grande número de desempregados no país, uma maioria preta deixada com péssimas condições, só pra contextualizar. Ou seja, precisamos sempre estar em movimento, fazendo alguma coisa . Então é comum que haja sempre muitos embates nesses espaços elitizados, principalmente se você aponta racismo da estrutura do lugar. Mas afinal, por que é importante manter o protagonismo? Porque é exatamente dessa forma que vamos quebrando barreiras e derrubando os muros, e a série mostra como é possível você usar de seu próprio estímulo pra realizar coisas. Porque afinal quem vai fazer por nós, se não nós?

Falando sobre o racismo velado, aquele que a gente nem percebe porque já está naturalizado em nós e no outro. Acho que dá pra usar como exemplo da relação entre a Sam e o Max, seu namorado branco. Quando assisti a primeira vez, eu não tinha me ligado muito no personagem dele, mas depois assisti com um outro olhar, e realmente ele é o um indivíduo muito presente em nossas vidas, e que faz parte como namorados, namoradas, pais, avós, primos, amigos,  etc.. Mas como assim? Você tem uma ótima relação com essa pessoa, se conhecem há algum tempo, mas nem ela e nem você sabe qual o tipo de relação que está sendo construída, pois é exatamente no momento em que a luta pega fogo que sabemos quem vai estar lá, reconhecendo você e reconhecendo um sentimento puro entre os dois e não cobrando e culpando sua posição sem saber que a motivação da reclamação é o racismo e não a causa propriamente dito. Não estou dizendo que não vamos nos relacionar com as pessoas brancas, jamais, mas é importante sempre educar e manter um canal de diálogo aberto, porque senão  a gente segue em uma dinâmica muito pouco saudável. Racismo velado vai além da palavra, é um gesto, um sorriso, um olhar, uma expressão, um movimento. 

Outra coisa que me chamou atenção é em como a série tratou o sentimento de liberdade em cada um dos personagens, pois essa liberdade está correlacionada com a história de vida de cada um, seus desejos, seus medos, suas escolhas. Na Sam, eu pude perceber o desejo de se libertar não só das amarras do racismo, mas de toda a pressão da militância, da luta e do embate direto, a gente se sente assim quando tenta fazer algo que realmente dê prazer, mas ao mesmo tempo se sente culpado e pressionado a continuar na luta, porque afinal, há escolha? Assim como Troy, que estava preso dentro de uma condição de homem de sucesso, carregando o peso das conquistas de seu pai nas costas, sem ter qualquer possibilidade de ser ou existir fora desse contexto, a liberdade de viver. Tirando o fato de aprender muito sobre a pretitude no Brasil, a militância não traz prazer, pois a gente reivindica questões básicas para a sobrevivência, e saber que estamos sempre na mira do corte, não é prazeroso. Colandrea, pra mim uma das melhores personagens, seu único sonho era se ver livre de toda realidade violenta que sempre a acompanhou. Quem não? Lionel, tinha o nosso grande sonho de se libertar das portas dos armários, se descobrir na intimidade, transgredir as barreiras de ser negro e ser gay. E Joelle, tinha o sonho de ser amada pelo homem que ama se libertando da angústia da solidão. Todos nós temos sonhos de liberdade, todos nós queremos não apenas sobreviver, e viver, queremos e existimos.

Acho importantíssimo destacar que todxs nós pessoas pretas, temos direito de falar, opinar, atuar, conscientizar, fugir, gritar, sumir, voltar, fazer uma música, pintar um quadro, falar com as estrelas, viajar, namorar, se sentir seguro, comer uma pizza, não fazer nada, dar muita risada, muita risada mesmo, cantar, ir no show da Beyoncé, e principalmente temos o direito de ser quem a gente quiser, não somos obrigados a entrar em uma caixa de esteriotipos, onde projetam em nossos corpos todos os seus medos, e desejos. Apesar de estarmos e sermos poucos nos lugares e nos poderes, somos a maioria da população brasileira, temos uma história que precisa ser resgatada, precisa ser transmitida, precisa ser ensinada nas escolas, e não só nosso passado de opressão, mas principalmente nosso passado de glórias, de reis e rainhas, de escritores, artistas, professores, heróis, tudo aquilo que nos constitui hoje com toda diversidade existente, afinal todos nós sabemos o que é ser afrodescendente num país como o Brasil? 

“Dear White People” acendeu meu desejo de liberdade, primeiro por ajudar a lembrar que a luta não deve ser solitária, que apesar de sermos poucos nós estamos nos lugares, graças a luta de muitos outros, por me lembrar que preciso respirar e acalmar o máximo o coração, pois se de fora pra dentro a situação ta difícil, nosso interior precisa se manter o mais firme possível, e por isso que acho a série tão importante pra quem é black people, pois somos tantos e somos um, e é fundamental que a gente tenha consciência sobre o impacto de nossas vidas dentro da sociedade, e principalmente resgatar nossa própria humanidade, buscando relações de afeto e criando vínculos com outros semelhantes. 
E concluo parafraseando Frederick Douglass,  pois “[...] é mais fácil construir crianças fortes do que consertar homens corrompidos.” Mas ambos são desafios, ambos precisam ser feitos.