9 de mai de 2017

A solidão da mulher negra

Mulher negra... O assunto não é sobre segregação, o assunto é sobre solidão


Desde a época do Brasil Colonial mulheres negras são solitárias. Podemos confirmar o fato ao voltar 400 anos nos livros de história, é nítido que escravas eram tratadas como objetos, usadas para satisfazer os desejos sexuais de seus "senhores", engravidavam e nunca eram assumidas - começando assim a miscigenação que tantas pessoas acham magnífico, mas foi algo extremamente violento -, essas mulheres eram escondidas pelos mesmos, enquanto as esposas de tais senhores, mulheres brancas de alta sociedade eram mantidas como troféus por eles. Eram as que eles tinham orgulho de exibir e mostrar para o mundo a existência de uma relação afetiva entre ambos, afinal casar-se com uma mulher branca nunca fora motivo de vergonha, não é mesmo? 

Sabemos que mulheres ainda sofrem com a violência de gênero e toda essa opressão exacerbada desde sempre, quando são negras, a coisa toda se torna ainda mais complicada, pois o fato de as mesmas serem vistas como objeto sexual e serem fetichizadas o tempo todo não teve fim mesmo 400 anos tendo se passado. Podemos claramente afirmar que a solidão dessas mulheres começa na infância, quando muitas dificuldades são enfrentadas desde a discriminação na escola até a falta de representatividade nos brinquedos e meios midiáticos por exemplo. Vemos que as persongens de séries e desenhos que nos são apresentados em sua maioria são brancas, as bonecas e barbies são loiras, de olhos azuis, com seus cabelos lisos e sua pele de porcelana, intituladas de "perfeitas" e se algo sai desse padrão se torna "feia" ou "estranha". A partir desse início um tanto quanto complicado essas meninas já crescem desenvolvendo uma insegurança gigantesca, duvidando de sua capacidade e de seu intelecto, sempre se sentindo inferiores e amedrontadas em qualquer situação de maior pressão.

Quando a fase adolescente chega essa menina negra se vê em diversos dilemas, é a fase em que a mesma provavelmente já alisou seu cabelo por conta das imposições de uma sociedade racista, é a fase em que as primeiras paixões - mesmo que platônicas - começam a acontecer, e é principalmente a fase em que a mesma descobre suas inseguranças e seu medo de nunca ser amada. E é exatamente nesse ponto que tudo começa a sair do planejado, geralmente no primeiro namoro dessa menina seu namorado a chama de "moreninha" por receio de chama-lá de negra e a ofender - sendo que para a própria mulher negra o período de aceitação é extremamente doloroso e demorado -, o mesmo tem vergonha de sair com ela na rua, tem uma enorme síndrome de escondê-la o tempo todo com medo do que os "parças" irão achar sobre o fato dele estar namorando uma menina negra, até mesmo a negação de mudar o status de relacionamento no Facebook e o fato de ele nunca postar fotos dos dois, enquanto sozinho e com os amigos ele posta diariamente, abala absurdamente a auto estima dessa garota e a faz perceber que seu namorado tem vergonha de assumir um relacionamento com alguém de sua cor. Esse cara na primeira oportunidade irá trocá-la por outra mulher, provavelmente branca (e se o homem for negro temos a famosa palmitagem), assumindo o namoro com a nova namorada na mesma semana, exibindo orgulhosamente seu status de novo relacionamento em suas redes sociais e dando o motivo do término para o fato de que a menina negra era "muito fresca", "cheia de problemas e inseguranças", alegando que não tem cabeça para isso. 

A solidão se intensifica após a garota notar que foi trocada como um objeto, ou sendo ainda mais drástica, como um pneu step de um carro, isso a faz notar o quão sozinha ela é e o quão difícil pode ser fazer com que alguém simplesmente a ame, algo que parece tão simples para as outras pessoas e que para ela parece nunca funcionar. Infelizmente a vida da mulher negra será sempre assim, repleta de inseguranças, com o medo constante de nunca ser amada, de nunca ter alguém que não tenha vergonha de mostrá-la para o mundo, a espera de alguém que tenha orgulho de tê-la como namorada e até mesmo esposa e nesse caminho de espera muitas outras decepções, traumas e outras chateações acontecem. 

Para muitas pessoas isso pode parecer exagero, "mimimi" (não sei porque as pessoas ainda usam esse termo tão vazio), carência, entre outros termos que são usados para tentar justificar algo tão sério, mas para quem sente é devastador, sufoca, desespera e principalmente machuca. Toda vez que uma mulher negra é trocada o sentimento é como se o mundo abrisse em baixo de seus pés e que toda a evolução psicológica feita com muito esforço foi perdida de uma forma extremamente violenta. Então se você, leitor ou leitora desse texto, está se relacionando afetivamente com uma mulher negra, entenda seus dramas, suas dores, seus sofrimentos e seus traumas, a ajude, não a julgue e principalmente não tenha vergonha de mostrá-la para o mundo, o mínimo que ela espera é compreensão e amor, coisas tão simples de serem dadas e trabalhadas. Faça ela se sentir única, especial e valiosa, mostre-a que sua beleza é excepcional e que todo sofrimento traçado em sua vida não é nada perto do amor que você tem para oferecê-la.